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Revista Onne - Edição 16

Matéria escrita pelo gestor cultural Cézar Prestes a respeito da série Casa dos Olhos Fechados na Edição 16, em dezembro de 2021.




A magia da arte aciona uma reação emocional. E, se conhecemos a história da obra e do criador, a percepção daquilo que vemos e sentimos é potencializada. O artista Rogério Pessôa, como o arquiteto que se submete ao efeito do material incorporado na obra, adota na estrutura de suas criações autorais recentes galhos de árvores e sarrafos de madeira que dão as linhas de suas “construções”. A volumetria é completada pela cerâmica com o tom da terra que molda com estilo único as suas Casas dos Olhos Fechados. Sim, porque a arte está em um lugar onde só os artistas frequentam. E, se a inspiração vem das memórias afetivas, então o vazio e o silêncio adquirem corpo e voz que vêm do coração.

Com a pandemia, Pessôa seguiu para o Litoral Sul: retornou com a família para sua cidade natal, Rio Grande, junto à praia do Cassino, para que seu filho desfrutasse de espaço e da natureza. Adivinha. Quem desfrutou dos efeitos benéficos do cenário foi o pai. Com a mudança, emergiram as memórias de quando ele brincava com o irmão dentro das casas vazias na baixa temporada. Era a inspiração trazida pelas lembranças da sua própria infância, gerando uma vila com miniaturas de casas (bem) assombradas unindo o imaginário infantil com o fazer do artista.


– Naquela época, morar na praia no inverno era morar em um vilarejo vazio, com casas fechadas e apenas a circulação do vento. As ruas e os pátios dos vizinhos eram parte de nossas brincadeiras que combinavam com o cenário. Se a brincadeira era de Forte Apache, escolhíamos uma casa que se parecesse com um forte, se fosse para fazer um piquenique, íamos aonde tivesse um bom alpendre, se era para subir no telhado, tínhamos locais certos para escalada – conta Pessôa.

Ao explicar que “essas lembranças invariavelmente vêm com os olhos fechados para melhor fixar os detalhes”, o artista justifica o nome desta série (Casas dos Olhos Fechados). É muito gratificante acompanhar o resultado da criatividade dos artistas e os processos evolutivos de suas obras.

– Gosto de pensar em coleção, isso dá mais força e impacto a variantes e possibilidades estéticas. Nada é gratuito ou por acaso – essa relação de pensar em série ajuda no foco e no potencial de um todo (já imaginando uma exposição). Agora coloquei como meta 12 peças (casas-galhos), cada uma com história distinta (magia e fantasia) que pretendo transformar em fábula – ressalta Pessôa.





Criando desta maneira, o artista forma uma unidade, que será exibida em uma exposição individual que estou encaminhando. Fico imaginando o conjunto de casas térreas, algumas de mais de um pavimento, sobre palafitas, com esqueleto orgânico formado por galhos ou estruturadas em pequenos sarrafos de madeira. Dessa maneira, as escalas são diversas, determinadas até mesmo pelos tamanhos dos galhos coletados ao acaso durante caminhadas do construtor. Já os pesos das casas deste condomínio variam de cinco a dez quilos.

– A diferenciação estética da forma como são produzidas está relacionada ao tipo de material, sarrafo ou galho, em razão do acabamento ser mais ou menos orgânico na forma de modelar a argila. Esta forma gestual, com a presença marcante da “costura” e da ferramenta fazem a interlocução com minha trajetória e acervo. O modelado solto e descompromissado, a repetição de movimentos da costura e o caráter orgânico são os principais elos comuns do meu trabalho – analisa o artista.

Mas nem sempre houve clareza de suas escolhas desde o princípio o que, contudo, não gerou amarras que contrariariam sua natureza. Pessôa conta que entrou na faculdade certo de que iria para a pintura e o desenho, as expressões artísticas com as quais mais se identificava e, de certa forma, já praticava. “Todavia, logo na entrada do Instituto de Artes, eu, muito ‘verde’, me deparei com professores e colegas que utilizavam um vocabulário e uma ‘viagem’ estética que eu não compreendia”, conta o artista.

Do mesmo modo que é interessante acompanhar as inspirações, também saber mais do percurso acadêmico e seus percalços torna o artista mais próximo de nós. Mas o que mesmo aconteceu com Pessôa na faculdade que o levou a começar sua relação com a cerâmica? Ele conta com gosto tudo sobre esses primórdios:

– As razões e os porquês dos traços e das pinturas eram muito carregados de psicologia e conceito, pelos quais eu não estava maduro para esse entendimento. Quando descobri a cerâmica e a escultura, foi mais ou menos como entrar em uma cozinha, onde as formas de se expressar são mais baseadas ou, pelo menos, devem atender a questões mais técnicas e palpáveis. Essa sensação de compreensão do que era ou não importante para a construção das peças me ajudava a entender de forma mais prática os caminhos a serem buscados.

Mas cada técnica tem sua, digamos, personalidade. Pessôa conta que compreendeu que “é necessário se impor diante da cerâmica, de forma que se possa conduzir o almejado”. Achei interessante a forma dele descrever essa relação, ao explicar que “a cerâmica aceita tudo, todavia essa amplitude de possibilidades por vezes pode ser perigosamente o canto da sereia, uma vez que os vários caminhos poderão confundir em relação ao foco e estilo”. O artista diz ainda que fez todo o diferencial para ele que o fato de a cerâmica “casar’ com qualquer outro material (o ferro e agora a madeira), o que a lança para um tipo de trabalho que tem uma nova significação, dando um caráter escultórico bem mais livre na sua condição de obra: a obra deixa de ser rotulada como peça cerâmica e passa a ser uma escultura (sem amarras)”.




Memórias de vento, frio e silêncio, madeira e cerâmica entremeadas de paradas para o café, “necessárias para relaxar e se afastar um pouco da produção” prometem uma exposição cheia de histórias e arte de Rogério Pessôa. Acompanho seu trabalho, que conheci em uma Mostra Casa&Cia à beira do Guaíba, de onde emergiam juncos de metal e cerâmica, desde então inesquecíveis para mim, assim como as imagens destas casas que equilibram vida e arte.


Cézar Prestes, gestor cultural, marchand e curador. Teve atuações como Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, diretor do Departamento de Patrimônio Histórico, Museus e Arquivos do RS, Museu de Arte do RS Ado Malagoli (MARGS), diretor e curador do Centro Cultural Aplub e das suas galerias Grafite e Cézar Prestes Artte. Entre suas ações, como diretor do MARGS, realizou a exposição Arte na França, que atraiu 37 mil visitantes do Brasil e do exterior.

@cezarprestes


Fotos de Rogério Pessôa na praia do Cassino, Rio Grande do Sul

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